Editado pelo Grupo Interlab Ano XXX - Nº 138
Outubro / Novembro / Dezembro de 2008
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Uma cirurgia inédita no mundo...

Hulk volta à vida

   

Dia 30 de março, talvez foi o maior dia na vida de um chimpanzé chamado impropriamente Hulk por humanos, e que viveu na escuridão quiçá mais de 15 anos. A tecnologia humana, no campo da Oftalmologia Cirúrgica, e as mãos mágicas do Professor Dr. Walton Nosé, e sua equipe, fez aquele chimpanzé voltar a uma nova vida.
Para um chimpanzé torturado por humanos, através de seus dentes arrancados, foi castrado, violentado até acabar com sua resistência, não é nada comparável a cegueira. Nós convivemos com Hulk quase três meses, o levávamos à mata de mãos dadas, para ele sentir o cheiro das árvores, do chão, das flores e das folhas, para ele tentar subir timidamente em alguma árvore. De mãos dadas o levávamos para ficar perto de outros chimpanzés, quando ele sentia a presença deles se transformava, queria mostrar sua força, batia no chão, porém estendia a mão para eles, o que evitávamos, já que ele não sabia como seria recebido. De mãos dadas o levávamos sob o túnel, onde os chimpanzés pequenos se amontoavam a fim de vê-lo, e emitiam o som clássico “ou ... ou ...ou”, e Hulk também respondia, porém ele não sabia quão perto eles estavam. Ele estendia a mão para cima querendo alcançá-los. Hulk também procura com desesperação o contato com outros chimpanzés, está cheio dos humanos que só trouxeram tragédias e sofrimentos em sua vida.
Em poucos dias o Professor Nosé estudou teoricamente o olho de um chimpanzé, que depois comprovou na prática, que é idêntico ao humano, e marcou o dia da cirurgia.
A equipe do Professor Nosé, com todo o equipamento necessário, que incluiu um grande microscópio para oftalmologia, chegou pouco antes das 10:00 h. e nunca tinha visto pessoalmente o Hulk. Deu uma olhada em seu olho esquerdo, com uma catarata já quase cobrindo-o totalmente, e pediu para anestesiá-lo. Em poucos minutos a Dra. Camila anestesiou Hulk, enquanto a equipe do Professor Nosé montava em nossa clínica todo o equipamento necessário. Às 10:30 h Hulk estava na mesa de operação, e após um exame do olho, o Professor falou que era possível realizar a operação. Vinte minutos depois o milagre estava feito, o olho esquerdo do Hulk voltava a vida e a receber a luz da natureza. O olho direito já tinha sido perdido há muitos anos, com uma infecção que se fez crônica, e era irrecuperável. O plano inicial do Professor Nosé era colocar uma lente dentro do olho, que lhe permitisse recuperar 100% a visão, porém o cristalino não estava estável para conseguí-lo, e optou pela opção de que sua visão seja 30% e os óculos a convertam em 100%, até ver se é possível, em uma nova cirurgia, dispensar os óculos.
Durante todo o sábado acompanhamos Hulk, colocando os colírios necessários, e os remédios para encurtar o pós-operatório. No domingo de manhã, Hulk estava tão surpreso como nós, alguma coisa estava acontecendo em sua mente.
As imagens já esquecidas de como era o mundo, estavam entrando em seu cérebro. Me parece que ele pensou que estivesse sonhando. O levamos para fora do dormitório, e a primeira visão foram as grandes árvores movidas pelo vento. Ficou fascinado com aquilo. O levamos para fora do recinto, já conhecia os obstáculos em seu caminho, não precisava mais de minha mão, e da mão de nenhum humano para andar e decidir aonde ir. Viu um eucalipto e o abraçou, sentou ao seu pé e enxergou longe, a quilômetros de distância, e começou a procurar algo, nós sabíamos o que era, porém desde ali não podia vê-los, nem eu segurá-lo para não ir até os chimpanzés, e ter reações inesperadas. Voltei com ele para o seu recinto, ele já andando sozinho. Começou a reconhecer o seu cativeiro. Portas, cadeados, as restrições. Começou também a matutar como sería sair de lá.
(Matéria publicada no site do GAP em 01/04/08)

Dr. Pedro A. Ynterian
Presidente do Projeto GAP Internacional
www.projetogap.org.br

 


 
 
 
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